08/12/2014
Estar só ou estar sozinho?

Estar só ou ser sozinho? Palavras próximas, mas com diferentes conotações na vida psíquica de cada um de nós. Estar só requer um amadurecimento afetivo conseguido por alguns de nós, que foram marcados por relações primárias de amor e integridade. Existem também os inconformados que buscam no crescimento individual, através da terapia ou por outros mecanismos de consciência, o contato com suas faltas existenciais. Reviver a angústia primária permite ressignificar e elaborar dores profundas de nossa construção psíquica.

Quando isso não acontece podemos criar como defesa nas relações o isolamento, para evitar o contato profundo com o outro, que nada tem a ver com a possibilidade madura de estar só. Embora muitas vezes facilmente confundimos estes estados de ser na vida, estar só requer a capacidade de vincular-se sem se perder no outro. Para muitos, uma conquista difícil é estar diante do outro preservando a liberdade, a individualidade e a inteireza emocional, uma vez que os padrões mais arcaicos de nosso psiquismo são caracterizados por experiências pré-individualizadas e de dependência.

Esta talvez seja uma das maiores buscas do ser humano em sua vida afetiva, e também sua principal possibilidade de amar verdadeiramente. Estar em si diante do outro pode ser o caminho para a construção de relacionamentos autênticos entre duas pessoas que realizam simultaneamente, juntas e separadas um terceiro caminho. Algo que é parte de cada um dos dois, mas é também um espaço novo de criação entre eles. Nas relações simbióticas ou nas defesas de isolamento existe uma impossibilidade desta construção de vida amorosamente madura.

No estágio primário do desenvolvimento psíquico, quando o bebê encontra-se envolto em uma relação dual não ocorre diferenciação da figura materna ou sua substituta. Em seu universo psíquico, a criança sente como se a mãe fosse ela própria. Isso se explica, pela sua incapacidade de apreensão plena do angustiante fato de que todos nós nascemos incompletos, necessitando de outros seres para os cuidados básicos que preservam a nossa sobrevivência. Esta relação primordial com a mãe será de total dependência, pois neste momento ainda não está introduzida a figura paterna como parte integrante da vida deste bebê. A entrada do pai, quando a maturação biológica e emocional permitir, vai estruturar um triângulo e a interdição, responsável pela percepção de que o outro existe fora e separado do sujeito.

Na compreensão kleineana, a depressão pode ser motivada por uma permanência do sujeito no estágio simbiótico. Em muitos casos, mesmo na vida adulta a pessoa encontra-se nesta relação dual, sem a condição de separar-se e diferenciar-se da mãe, agora internalizada fusionalmente. Assim, o adulto segue sua vida mantendo um padrão fixo no seu desenvolvimento psíquico, que caracterizado pela busca da junção simbiótica como forma de amor. Verificamos este fato na repetição compulsiva de relacionamentos que correspondam a este modelo infantil. Isso gera no sujeito a dificuldade em apropriar-se de sua auto-imagem e individualidade. A organização egóica inicia-se na formação de uma unidade, primeiramente incorporando a palavra “eu” em sua linguagem, que se contrapõe ao outro que está fora de si, para em seguida incorporar a expressão “eu sou”. Caso a acolhida do meio seja afetuosa, inicia o momento que Winnicott descreve como sendo “eu estou só”, que será conseqüência da experiência do “eu sou”.

Segundo Winnicott, a diferenciação faz-se de forma paradoxal, considerando que a capacidade de estar só, inicia-se com a possibilidade real do sujeito de ser ver só na presença da mãe. A criança, ainda muito cedo, precisa confiar no afeto materno, a ponto de permitir-se estar só. A mãe afetivamente inteira para seu filho, possibilita que este desenvolva a sua individualidade, sem o receio do desamparo quando ela estiver ausente fisicamente. Internalizada neste bebê, a mãe será presentificada através de objetos substitutos. Esta criança poderá estruturar de forma mais sólida o seu psiquismo, libertando-se de maneira saudável do processo simbiótico, através do amor verdadeiro que liberta e não aprisiona.

Na vida adulta, este processo de individuação pode ser reconhecido em momentos como após o orgasmo, quando os parceiros encontram-se em seu próprio estado de prazer, embora estejam juntos. A este momento, Winnicott chama de “solidão compartilhada”, e aponta para o fato de isto significar a liberdade da reclusão. Sabemos da importância das experiências primárias para a vida subseqüente de cada sujeito, uma vez que os seus momentos iniciais de existência influenciam diretamente o destino de sua sexualidade adulta e de suas escolhas futuras. No contato com a sexualidade dos pais, a criança por vezes experimenta um processo de raiva, quando percebe que não faz parte desta excitação. Essa percepção pode desembocar na masturbação, por meio da qual escoa a energia da construção fantasiosa em relação às figuras parentais. Assim, de forma positiva, estará integrando a agressividade e o erotismo. Isto permite ao sujeito um crescimento sexual, e uma maior condição de atingir a genitalidade em suas relações.

Ainda partindo dos pensamentos winnicotiano e kleineano, a capacidade de estar só está intimamente ligada à internalização do “objeto bom”. A experiência psíquica de uma “mãe suficientemente boa”, que falha amorosamente, é imprescindível para que o sujeito possa avançar no mundo externo. Para isso é necessário que a criança confie no amor que já possui dentro de si. Isso significa que para o desligamento do “objeto primário”, a mãe (ou substituta), em sua realidade psíquica, deverá ocupar um lugar seguro, de pertencimento, sem o medo de perder o amor. Configura-se a partir disto, uma condição de auto-suficiência, que permite legitimar a maturidade psíquica e sua integridade emocional.

A relação estabelecida entre a criança e a mãe pode ser a essência para a amizade e também a matriz da transferência, no processo analítico. Apenas quando a criança consegue atingir o estado de estar só plenifica o relaxamento, pois está isenta da tensão de ser abandonada. Logra, assim existir para além do outro, na completa integração de seu ser. Segundo os conceitos psicanalíticos, a importância dos primeiros contatos entre a mãe e o bebê, em sua primariedade psíquica, presentifica-se nos laços afetivos e nas angústias de separação da vida adulta. O que também significa a grande saída para a elaboração e reestruturação destas experiências na construção da verdadeira liberdade: a integração de das partes, um dia fragmentadas, no interior do indivíduo e nos vínculos com o outro.


Por: Georgina Martins

 

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