08/12/2014
Metáforas do Amor: o processo de individuação no filme O Carteiro e o Poeta

Olhar, escutar e sentir o personagem Mario Ruoppolo, no filme O Carteiro e o Poeta, nos faz refletir sobre a simplicidade do crescimento psíquico. Como as águas do oceano da pequena ilha onde se passa a emocionante história do encontro entre Pablo Neruda e o carteiro que lhe entrega regularmente suas correspondências. O mar mantém sua rotina, sustentando a beleza de seus movimentos fluidos. A água bate na areia e nas rochas, produzindo sons jamais ensaiados. Assim também se faz nosso processo de individuação. O caminho para esta completude psíquica segue um fluxo natural, isto é, uma tendência espontânea que leva cada sujeito ao encontro de sua verdade interior. Não podemos entendê-lo como um caminho linear, mas como o grande encontro com a nossa essência, aquilo que realmente somos como humanos.

Logo no início do filme torna-se clara a insatisfação de Mário com a forma de vida possível na pequena ilha onde nascera. A tentativa de diálogo com o pai que parece conformado com seu destino não resulta numa saída. Como num verdadeiro encontro sincrônico do universo, Mário vai até ao centro da cidade e assiste em um cinejornal os últimos acontecimentos na Itália, descobrindo assim o personagem de Pablo Neruda. Este grande poeta comunista estaria chegando à Itália como refugiado político, justamente naquela ilha. Novamente, como um destino prenunciado, Mário candidata-se à tarefa de carteiro quase exclusivo de Neruda.

Este contato marcou a vida de Mário para sempre, trouxe um novo mundo interno e externo. A revelação de um universo que ele não conhecia – o da linguagem poética e de suas metáforas - transformou sua insatisfação interna em lirismo. A descoberta da força expressiva das palavras, com sua capacidade de traduzir os seus sentimentos e o seu pensar a respeito do mundo, trouxe a este simples carteiro a grandeza da alma. A vida se abre, sua personalidade ganha espaço e não se contém mais no pequeno homem sem grandes sonhos. A primeira etapa deste processo deu-se pela descoberta do amor, pela forma poética como Neruda descreve as paixões e sensibiliza as mulheres. Esta identificação leva o carteiro a interessar-se pelo caminho da poesia e da construção metafórica que compõe a escrita deste admirado poeta.

Um dos momentos mais interessantes do diálogo entre estes personagens é aquele em que Mário pede que o poeta justifique as palavras escolhidas em seus versos. Sem muito pensar Neruda responde: “Quando você explica, a poesia se torna banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar a uma alma suficientemente aberta para entendê-la”. A partir deste episódio Mário se abre para o contato com sua essência poética, e passa a olhar o mundo com mais atenção. Neste novo olhar descobre-se apaixonado pela bela Beatrice, para quem direciona seu afeto. Este amor que poderia ser compreendido como um simples encontro o faz descobrir a grandeza de recitar poemas com sentimentos profundos. Ao mesmo tempo permite uma abertura para a sua verdade diante do mundo. Desta forma, passa a implicar-se na vida cotidiana de sua cidade, questionando valores religiosos e políticos de seu povo. Ainda bastante influenciado pelo pensamento de Neruda, enfrenta a indiferença política e a ausência de expectativas de transformação que prevaleciam entre os habitantes da ilha.

Depois da partida do poeta, Mário se vê solitário em seu caminho. O ponto que já alcançara em seu crescimento interno não lhe permitia mais recuar. Nesta nova forma de ver o mundo, os olhos não poderiam mais se enganar e renderem-se à mediania, à normalidade. Seu isolamento tornou-se evidente, sua diferença o levara à certeza de que não cabia mais nos mesmos lugares que ocupava anteriormente. Assim, como um herói em sua trajetória internamente solitária, busca encontrar um sentido para seu “destino”. Diante do desejo de produzir um presente para seu amigo Neruda, decide gravar todos os sons vivenciados pelo poeta durante sua estada na ilha. Por meio desta iniciativa, redescobre também a beleza de sua terra natal. Todas as sonoridades que agora faziam parte de um novo contexto criaram uma “musicalidade” semelhante àquela existente nos poemas de seu amigo e mestre.

Neste momento algo se modifica em seu ser, agora consciente de onde surgiu. Assim, descobre seu papel no mundo, define sua existência individual e coletiva, no encontro da poesia com a luta comunitária. Ao mesmo tempo em que se inspira em Neruda, apropria-se de sua verdade interior. Não é mais uma luta apenas por reconhecimento do seu mentor, mas agora esta busca é sua essência vital. Embora a sua manifestação literária tenha como referência uma homenagem ao poeta da sua vida, desta vez é sua a produção. Portanto, agora, ele próprio era um poeta.

O caminho deste personagem pode ser compreendido, como nos apresenta Jung, na circunvolução que o levou a um novo centro psíquico. O seu funcionamento no mundo gira em torno de um movimento de mudança, o encontro com sua verdade, ou como descreve a Psicologia Analítica, o encontro com seu self, o “si mesmo”. O carteiro que inicialmente se encanta pelo “poeta das mulheres”, descobre que a poesia de Neruda entra na sua vida com o propósito de transformação e completude. Surge o homem em seu sentido mais pleno, como um ser criativo e consciente de seu papel no mundo, não mais o cumpridor de uma simples tarefa social.

Este homem, presente como um ser comunitário, representante de seus sonhos e princípios, redireciona sua trajetória para o mundo. Nesta nova configuração diante da vida, expõe-se aos mesmos riscos dos que enfrentaram o poder, defendendo suas convicções. Assim como Neruda, seu inspirador, Mário usa sua poesia para manifestar através do afeto o que pensa e deseja para o mundo. Neste momento torna-se claro o crescimento deste indivíduo. Integram-se amor e espírito comunitário em uma única busca. Esta seria talvez a maior conquista deste nosso personagem, sua inteireza como humano, em seu processo individual e coletivo.

Podemos supor que o amor foi o fio condutor neste caminho percorrido ao encontro da essência humana, em todas as suas vicissitudes. A coragem deste personagem nos remete à trajetória do herói, aquele que enfrenta seus fantasmas e sombras em busca de um ser mais próximo de si mesmo. Olhar para o percurso de Mário, nos mostra a grandeza em torno de um centramento constituído cuidadosamente. Nesta nova forma de funcionamento psíquico, este personagem aprendeu muito mais do que construir metáforas, descobriu o amor e o orgulho de ser quem era. A simplicidade desta historia nos revela que o caminho interior não necessita de eruditas e complexas elaborações. O singelo ato de abrir os olhos para o mundo retira as cortinas da alienação e nos apresenta a quem somos.


Por: Georgina Martins

 

A Neuropsicologia é o estudo da relação entre as áreas cerebrais
e o sistema nervoso, com o comportamento humano. A Avaliação Neurosicológica é realizada...

A Reabilitação Cognitiva é o processo que visa a estimulação cognitiva podendo auxiliar na recuperação, na melhora da performace e na diminuição do ritmo...

Conheça nossos profissionais que são psicólogos credenciados no CRP, com formação e especialização em suas abordagens de atendimento. Estamos preparados para atender você.

Nesta seção separamos os melhores artigos da área de Abordagens em Psicoterapia. Textos e materiais preparados por nossos profissionais qualificados.