08/12/2014
Mitos e Processo de Crescimento

A construção artística do filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas foi muito feliz em sua riqueza simbólica. Apresenta arquétipos muito claros e bem estruturados nos personagens e nas suas relações interpessoais. O papel do Pai construído de forma a ressaltar a imagem mítica de uma paternidade heróica, sábia e onipotente, o que se manifesta especialmente nas histórias contadas pelo personagem.

Na infância do filho imaginado pelo filme é nítida a importância deste arquétipo, que guia sua vida, neste universo ficcional e também no mundo concreto em geral, Pai e Filho encenam juntos no mesmo palco personagens simultaneamente reais e fantásticos. A relação entre o mundo firmado na arte da ficção e a realidade institucional da família e da sociedade encontra seu elo nos laços afetivos que costuram os dois universos heterogêneos.

Em Peixe Grande, o Pai é um personagem que se mantém fiel aos seus sonhos e ideais. Houve uma verdade profunda que mantinha nesse pai a lealdade ao que acreditava, seus desejos e também uma inquietação que o fazia seguir em busca de mais aventura. Essa forma de viver o levou a criar em seu cotidiano um palco para suas expansões artísticas. A dificuldade do personagem em aceitar uma vida rotineira leva-o a conviver em dois mundos paralelos – o cotidiano e o universo das histórias contadas – que a despeito de coexistirem, não habitam o mesmo espaço. Com o crescimento do filho e sua necessidade de concretude, passa a haver um distanciamento entre os dois.

Trata-se de um afastamento tanto do significado simbólico da paternidade, quanto de toda a fantasia que, como uma aura, acompanha o personagem de seu pai. Em algumas falas o filho expressa o não reconhecimento desse pai em sua vida: “Éramos como estranhos que se conheciam muito bem”. Essa separação traz na a relação um afastamento necessário para que esse filho pudesse crescer e romper com esse pai e assim construir sua própria subjetividade e família.
Ao se ver na iminência de também ter um filho e da possível morte do pai, abre-se uma porteira para o profundo afeto que sempre existiu entre os dois. A linguagem do amor, como um código relembrado, permite que se aproxime da figura paterna, que ao mesmo tempo lhe fascina e amedronta Aceitar o pai em sua singularidade leva-o a ver-se diante de um espelho. A imagem refletida é contemplada com identificação e orgulho. Neste momento surge a possibilidade de resgatar seu vínculo com o pai e contar sua história sem perder a beleza deste universo fantástico e mitológico que norteia esta relação.

Convidada a assistir a este filme não poderia imaginar a intensidade de sua ação sobre minha sensibilidade. A prova desse fato foi a minha dificuldade em vê-lo de uma só vez. Percebi que não conseguia passar da metade da história, talvez por resistência ou defesa, criava uma forma de interromper a seqüência da narrativa. Ao reconhecer o que estava ocorrendo, espontaneamente me permiti uma sintonia afetiva como o conteúdo apresentado. A minha emoção foi tornando-se cada vez mais evidente, especialmente em momentos, como por exemplo, na dificuldade dos personagens em expressarem abertamente o amor entre eles. O pouco contato corporal e a falta de comunicação no decorrer de suas vidas pareceram-me a raiz das ambivalências e dúvidas em torno do que seria ou não verdade nas histórias contadas pelo Pai.

O mito do pai herói se desconstrói diante da vulnerabilidade e da possível morte e de um corpo frágil que perde lentamente a vitalidade. Os caminhos que enredaram os personagens, permitindo na descoberta concreta de fatos reais a junção entre os dois mundos até então dicotomizados. Quando o filho enfim aceita sua própria essência de um contador de histórias, semelhante ao pai, ocorre uma transformação na relação entre os personagens. Criar junto com o pai o final de sua história traz um momento único que permite a ambos fazerem parte do mesmo palco.

Entendo que este seja o caminho do crescimento de todo indivíduo. Ao aceitarmos e reconhecermos nossos vários personagens e registros arquetípicos, não mais como algo fora ou parcialmente nosso, mas como parte de nossa verdade, nos tornamos próximos da individuação. Toda construção simbólica e seus personagens são participantes do cenário, figurino e roteiro do que chamamos de uma história de vida. A última frase do filme traduz a necessidade de aproximação e compreensão dos diversos mundos paralelos que construímos, como expressão profunda e verdadeira de nossa personalidade: “O homem conta suas histórias tantas vezes que se mistura a elas e elas sobrevivem a ele e é desse jeito que ele se torna imortal”.

Somos imortais a partir do que construímos e das várias histórias que se perpetuam independentes de nossa existência. Somos seres do mundo e para ele deixamos nossa principal herança, o que somos e quem conseguimos ser. A verdade do que construímos e do que acreditamos nos transforma em energia que se funde com o universo de uma humanidade que transcende ao indivíduo.


Por: Georgina Martins

 

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