08/12/2014
Adolescência, Arte e Culutra

O processo de crescimento interno e externo de todo ser humano está inevitavelmente vinculado à sua cultura e às possibilidades de transformação e criação que lhe são favorecidas. Um dos momentos mais enigmáticos de nosso desenvolvimento apresenta-se na passagem adolescente. Encontramos vários estudos e alternativas para a compreensão deste assunto, entre as quais a psicanálise, que descreve este processo como uma fase de transição. Assim, a adolescência é marcada pelas vivências de luto do corpo infantil diante da aproximação de um universo adulto. Nesta etapa com tantas perdas e despedidas estamos frente à primeira possibilidade concreta, agora com um corpo mais estruturado, de rompimento e diferenciação das referências que estruturaram a infância. Para incorporar este mundo que se apresenta, o adolescente vincula-se a novas figuras de identificação, em busca da construção de sua identidade adulta.

Atualmente a neurociência também se ocupa em seus estudos sobre o funcionamento do cérebro adolescente. Em pesquisas recentes, comprovam que neste período da vida ocorre uma remodelagem no sistema de recompensa do cérebro. Esta seria a causa de tantas mudanças de comportamento, como o tédio, a procura por novas experiências, e inclusive a necessidade de correr riscos. Em seu artigo, Herculano-Houzel nos fala que este sistema de recompensa é “o conjunto de estruturas que nos premiam com uma sensação de prazer e nos fazem querer mais de tudo o que é bom ou dá certo. Logo no começo dessa fase há uma perda transiente de função, ou embotamento, do sistema de recompensa” . Esta mudança neurológica explica a supervalorização pelas novas experiências e interesses, como se o antigo abrisse espaço para a implantação de um novo caminho.

Exatamente por esta transformação, neste momento também se inaugura uma grande possibilidade de criação. Os canais internos estão necessitando de estímulos inovadores, abrindo espaço para novos conhecimentos e experiências, como a música, o esporte, a literatura, a filosofia e até mesmo a expansão religiosa. Verificamos que o jovem ao entrar na adolescência passa a operar com mais eficiência o pensamento abstrato. Inicia-se um período de amadurecimento psíquico através do aprendizado com os próprios erros. Seu comportamento não funciona mais como o de uma criança, já que pode prever as conseqüências de seus atos. Agora, com condições de flexibilizar seus lugares no mundo, sua relação com o outro passa a ser de interação e troca. Neste período, as regras são internalizadas, não mais sob o efeito do senso comum moral, mas a partir da tentativa de uma livre construção de sua ética. No entanto, esta mudança ainda emerge como algo inovador e desconhecido de seu mundo interno. Mesmo já tendo algumas atitudes adultas, não possui a autonomia de suas escolhas e ainda não discrimina claramente os caminhos que irá seguir.

A necessidade de diferenciação em relação às figuras parentais o leva para a busca de participação em grupos e toda a gama de ofertas deste novo lugar fora da família. Diante de tantas mudanças internas e externas, “ser adolescente” representa em nossa sociedade um período de grande risco, mas também um caminho de solidificação do indivíduo no mundo. Nesta etapa da vida se organizam todas as vivências anteriores, podendo configurar-se um adulto auto-suficiente, responsável, moral e ético, ou imaturo e dependente. A família e a sociedade precisam estar conscientes do seu papel nesta passagem, criando espaço de crescimento e independência. O núcleo familiar deve permitir que se distancie o suficiente para selecionar seus pares, com amizades que lhe auxiliem em sua formação identificatória. Neste ambiente propício de crescimento o sujeito estará preparado para as escolhas amorosas e profissionais, assim como na conquista de sua sexualidade.

A partir desta premissa, de uma adolescência como fase transitória entre a despedida da infância e a auto-apropriação de um sujeito adulto, torna-se compreensível a presença de um comportamento específico e diferenciado, com embotamento da expressão e recolhimento diante dos antigos personagens de seu contato. Logo, apresenta a necessidade de novas formas de comunicação. Como vimos anteriormente, abre-se neste período a manifestação de outros canais da linguagem. Esta etapa de maior simbolização pode ser facilitada pelo estímulo da arte, uma vez que nasce maior interesse pela música, artes plásticas, pintura, teatro e tudo que está relacionado à criação. De maneira diferente da criança, que se exprime de forma imediatista e catártica, o adolescente se interessa em participar culturalmente destes eventos, buscando refinar suas potencialidades expressivas, aprimorando seu conhecimento de códigos artísticos, desenvolvendo suas habilidades para a simbolização complexa dos seus sentimentos.

Seguindo este pensamento, o caminho da arteterapia mantém uma relação estreita com as conquistas de amadurecimento destes jovens. Utilizando-se da expressão simbólica através dos instrumentos artísticos, esta abordagem terapêutica amplia a consciência de seus sentimentos, emoção e funcionamento psíquico. Ao permitir que o inconsciente tenha um espaço para ser reconhecido em seus conteúdos reprimidos, como fonte criadora de vida, a arteterapia estimula que este momento juvenil torne-se o primeiro passo para o processo de individuação. Isso significa que auxilia este sujeito na conquista de sua distinção e singularidade. Favorecendo esta discriminação em relação ao todo, ao mesmo tempo em que induz a participação social do sujeito, a arteterapia permite este trânsito entre os conflitos internos inerentes ao crescimento e a construção de uma nova forma de caminhar no mundo. Conforme nos fala Nagem:

“Estes processos de transformação que podem ocorrer no campo material e no campo psíquico, se observados e relacionados durante o trabalho arteterapêutico, podem propiciar ao indivíduo que caminha uma integração de seus conteúdos materiais e imateriais, que se tornam matéria-prima essencial ao seu processo de individuação.”

Exatamente o tão temido conflito é o responsável pelo crescimento humano. Na tentativa de amenizar a dor psíquica criamos defesas que nos protegem de possíveis sofrimentos. Esse processo inicia-se ainda na infância quando vivenciamos nossas primeiras ameaças psíquicas, o que conduz à formação de mecanismos de adequação, muitas vezes através de bloqueios rigidamente condicionados. A chegada da adolescência ressignifica todas as vivências anteriores. Como um amálgama, revivemos todas as fases pregressas, na possível chance de reescrever a nossa própria história e consolidar nosso lugar no mundo.

Esta experiência vivenciada dentro do processo arteterapêutico permite ao jovem que, através de seu corpo presente nos trabalhos, elabore suas angústias e as expresse espontaneamente. Esta é a própria linguagem do inconsciente que se apresenta nas imagens criadas e na livre expressão de seu sentimento diante de cada criação. Isto traz ao sujeito a conscientização de seu ser e a aproximação de seu verdadeiro self. Assim, atingirá maior integração entre o inconsciente e o ego. O adolescente, ao receber os caminhos da cultura e da arte como fonte de crescimento, estará mais apto a transpor os obstáculos de sua passagem para se tornar um jovem-adulto responsável e preparado em seus desígnios futuros.


Por: Georgina Martins

 

A Neuropsicologia é o estudo da relação entre as áreas cerebrais
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