08/12/2014
Sonho e Criação

“Quem eventualmente, poeta não é, cria o quê? Se alguém não tem mesmo nada para criar, pode talvez criar a si mesmo.”C. G. Jung

Somos seres criativos e criadores de nosso percurso. A capacidade de imaginar e sonhar o futuro nos leva ao contato íntimo com as construções e conquistas de uma existência. Exatamente esta possibilidade de aprofundarmos os questionamentos inerentes à composição da vida humana, nos faz reconhecer nossa finitude e transcendência. Esta característica de nossa espécie nos torna conscientes da vital potencialidade de transformação. Ao olharmos para a trajetória humana reconhecemos que nossa história se fundamenta em sonhos que se projetaram em direção à vida a ser construída.

A este sonho podemos denominar devaneio, não no sentido da fantasia, mas da possibilidade de alçar o vôo necessário para a criatividade livre. Utilizando a reflexão do filósofo francês Gaston Bachelard, em sua proposta do devaneio poético, no percurso imaginário no amadurecimento psíquico, seguiremos ao encontro da essência única a cada humano. A imagem inata da psique apresenta uma pessoa que não fragmenta o passado, o presente ou o futuro, mas a coexistência dessas partes por toda uma vida. Neste pensamento, o sonho será compreendido como impulso da imaginação configurando um mundo interno.

O SONHO NA IMAGINAÇÃO DO CAMINHO

Esta capacidade imaginativa traduz emoções que identificam e apresentam o indivíduo ao mundo. Acompanhando a filosofia bachelardiana, falamos do sonho acordado, aquele capaz de conduzir aos conteúdos mais internos e ao mesmo tempo à sua mais intensa criação. O sonho revitaliza a força de vida, recriando a realidade e ressignificando a história. Assim, olhar para o futuro guarda em sua energia a condição de retornar a todas as experiências pregressas, ao mesmo tempo em que permite a noção e aprofundamento das edificações do momento. O ato de sentir novamente as experiências anteriores vincula as imagens do que ainda está no desejo, interligando as condições reais do instante e os sonhos que marcam o futuro a ser construído.

A função primordial do devaneio se apresenta em reviver lembranças e sonhos, utilizando a força de vida existente na singularidade de cada indivíduo. Toda pessoa guarda a característica inevitável de busca por um caminho ainda desconhecido pelo ego, de seu si-mesmo. Estamos nos referindo ao potencial criativo que permite a imaginação do vir a ser, atingindo direções que somente o sonho alcança. Esta “dilatação psíquica” proporciona ao sonhador a sensação de assentamento na tranqüilidade da criação. O contato com este aconchego traz à memória o descanso de imagens que nutrem e recriam a imaginação. Abre-se um campo rico em possibilidades, novas configurações e significados.

Ao seguir o pressuposto de que o sonho, em sua característica primordialmente imagética, é um importante instrumento nas experiências inerentes ao crescimento psicológico, estruturamos este estudo a partir da proposta arteterapêutica. Utilizando-se da expressão simbólica através das manifestações artísticas, esta abordagem amplia a consciência dos sentimentos, emoções e funcionamento psíquico. Quando permite que o inconsciente tenha um espaço para ser reconhecido, como fonte criadora de vida, a arteterapia – fundamentada na abordagem junguiana - estimula maior contato com nossa essência e o constante caminhar para o processo de individuação.

Como a fluidez das águas que buscam cumprir sua trajetória – que o manancial alcance o oceano – assim, os sonhos como elemento criativo resgatam um organismo vital, passível de transformações e auto-regulação.Conforme nos mostra a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, este processo permite revisitar os conteúdos organizadores da estrutura psicológica. A compreensão simbólica, através da expansão e consciência diante das produções artísticas, busca a amplificação dos símbolos que emergem através das imagens produzidas. O caminho da subjetividade psíquica favorece a discriminação em relação ao todo, ao mesmo tempo em que pressupõe a participação social do sujeito. A arteterapia permite este trânsito entre os conflitos internos e a construção de uma nova forma de estar no mundo. Nas produções durante o processo arteterapêutico, o sujeito será convidado a produzir imagens que lhe remeterão ao seu processo interno. Ao materializar conteúdos profundos de sua organização terá maior chance de elaborar de forma consciente os padrões repetidos como saídas únicas até então. A criação plástica e, portanto, também a criação sonhadora, poderá ser amplificada em diversas modalidades, o que facilita o relaxamento das defesas inconscientes e maior manifestação de substratos ainda não alcançados. O reconhecimento visível de símbolos e formações, representados materialmente no objeto criado, permite ao indivíduo debruçar-se diante de seu próprio comportamento e escolhas na vida.Tais fontes de expressão buscam, através da produção de imagens, a ampliação de processos inconscientes, gerando o equilíbrio da energia psíquica. Portanto, a terapia deve se apresentar como um espaço aberto para a manifestação das imagens intrínsecas ao indivíduo. Esta representação traduz os sonhos que seguem em direção ao futuro que está por vir, como força de vida a ser incorporada. Cavalcanti, em seu estudo junguiano, nos fala que “o método de amplificação, portanto, implica que o olhar terapêutico deixe de privilegiar somente o passado. As muitas possibilidades de encaminhamento da tensão psíquica – o futuro – também são consideradas”. Este movimento segue o percurso do ser sonhador, o contato com os conteúdos passados mediante a ampliação e desdobramento do que se apresenta.

Esta experiência vivenciada dentro do vínculo arteterapêutico possibilita ao indivíduo que, através de seu corpo presente nos trabalhos, manifeste suas angústias e as expresse espontaneamente através dos materiais artísticos oferecidos durante os encontros. Verificamos neste processo a própria linguagem do inconsciente que se apresenta nas imagens criadas e na livre expressão de seu sentimento durante cada criação. A situação traz ao sujeito a conscientização de seu universo interno, em seus sonhos e desejos. Mais consciente de sua existência e unicidade, este sujeito encontra maior possibilidade de retomar sonhos e projetos escondidos e abandonados em cantos esquecidos.

Durante o percurso arteterapêutico, podemos verificar que o indivíduo, ao conseguir a expansão de suas representações expressivas, mostra-se mais livre para o reencontro interno com seus conteúdos pessoais e arquetípicos. Este inovado olhar sobre o mundo resgata e permite o renascimento da essência sonhadora, que assume sua importância e seu espaço de construção. Uma das principais características do processo arteterapêutico consiste em recuperar a espontaneidade, a capacidade lúdica perdida em crianças que envelheceram endurecendo os movimentos e os sonhos.Nesta expansão da criatividade o sujeito pode novamente imaginar, provendo e nutrindo de imagens sua existência. Ao dar forma às suas imagens inconscientes, torna-se possível a leitura decodificada de conteúdos ainda não alcançados. Nesta compreensão das diversas manifestações que chegam ao processo de expressão terapêutica, encontramos a possibilidade de transcender o caos inconsciente. Assim como nos fala Philippini, “a matéria-prima formada pela energia psíquica antes difusa e fugidia ganha um continente. Assim, à etapa de dar forma, segue-se a possibilidade de In-Formar, cumprindo-se a função transcendente” . Ao utilizarmos a forma expressiva em materiais artísticos permitimos que se transformem internamente conteúdos rígidos de funcionamento e ação.

O DEVANEIO CRIATIVO E SEU TEMPO MÍTICO

Muitas vezes estes registros chegam como forma melancólica, de um tempo que não volta ou de um tempo que ainda não se viveu. Seria a saudade do que ainda não aconteceu. Este material surge de camadas inconscientes com toda força da libido, em imagens muitas vezes não reconhecidas pelo pensamento. A poesia voltada para a liberdade da imaginação possibilita que se traduzam em arte esses conteúdos carregados de energia. Estamos nos referindo a uma manifestação inconsciente de expressão, que chega ao consciente em formas simbólicas.No imaginário não encontramos a obediência dos limites em relação ao tempo e ao espaço. O conteúdo simbólico que mobiliza a energia psíquica desloca-se sem cumprir rigorosamente a objetividade exigida no mundo externo. Através da imaginação transita-se criativamente em todos os tempos e espaços, saltando conforme o percurso da produção interna do sujeito. Esta forma de representação está carregada de energia afetiva e criações artísticas que suplicam por um canal expressivo. Através da imagem produzida artisticamente, o imaginário, em total ligação com o sonho criativo, reconstrói a realidade com inovadoras possibilidades. Essas modificações no presente podem significar grandes projetos de transformação futura. Nesta concepção, os acontecimentos não serão previsíveis. Portanto, o tempo será interno e mítico.

Esta capacidade de projetar idéias, qualidade desenvolvida unicamente pelo humano, leva a um processo imaginativo do futuro. Criamos histórias que ainda não aconteceram e assim permitimos que sonhos fantásticos no presente se realizem por outros personagens em tempos que irão chegar. O humano busca sentido para sua existência como forma de sobreviver internamente às aflições de uma vida com intensos sentimentos. Como nos fala os estudos de Karen Armstrong sobre o mito,possuímos imaginação, uma faculdade que nos permite pensar a respeito de coisas que não se situam no presente imediato e que, quando as concebemos, não têm existência objetiva. A imaginação é a faculdade que produz a religião e a mitologia.

Em todo humano, independente da idade, existe a capacitação para construir sonhos e um mundo criativo. Esta potencialidade encontrada em nossa espécie permite recriarmos a realidade e sermos agentes produtores de sonhos que nortearão a vida concreta. O sujeito, através de suas imagens internalizadas, produz a forma do seu sonho, levando-o para o mundo em projetos de vida. No devaneio criativo torna-se possível enfrentar as angústias, convertendo as imagens em fonte de produção vital. Os sonhos iluminam o caminho, trazendo calor e força para transcender e transformar o real.Para Jung, o desenvolvimento psíquico mantém um processo contínuo em sua trajetória. Baseado no mito do herói, este percurso perpetua uma busca constante do encontro com sua essência. Podemos observar nos estudo sobre a teoria junguiana de Young-Eisendrath e Dawson que Jung também considerava que o desenvolvimento psicológico continuava ao longo de toda a vida adulta. Ele foi o primeiro a tentar esboçar as etapas da vida, com base no mito do herói solar que nasce com a aurora, sobe com o sol do meio-dia e depois desce no horizonte para a morte.

Este movimento de grande inovação criativa, carregado de imagens inatas da psique, necessita incessantemente de contato e expansão. Como uma árvore necessita de suas raízes para que possa crescer e frutificar, também o psiquismo humano necessita de sua mais profunda força pulsional para que seus conteúdos simbólicos alcancem a consciência. Quando se tenta através de processos repressivos deter esses elementos oriundos do inconsciente, incorre-se na possibilidade de adoecimento, com destruição interna ou externa. A quebra deste contato com os aspectos inconscientes individuais e coletivos pode levar em última instância à fragmentação psíquica.O processo imagético se traduz por si só, não incorrendo na necessidade de formar conceituações que representem seu conteúdo. Diante das imagens de um sonhador em sua poesia, o universo singular do criador surge como uma luz que penetra um campo negro e sombrio. Os símbolos que emergem apresentam a diversidade de cada momento. Explicar racionalmente o conteúdo de uma imagem ou devaneio reduz a grandeza de sua manifestação. Conforme os estudos de Bachelard, a razão e a imaginação são pólos que se repelem, funcionando de maneira alternada e complementar. Como duas polaridades fundamentais para o funcionamento do todo, o dia e a noite, o claro e o escuro. Esta harmoniosa dança traz em seu movimento a tranqüilidade necessária para a criação poética da vida.

O ENCONTRO COM O POETA DOS SONHOS

Nesta concepção, o imaginário não nega o real, mas possibilita a reformulação do universo que organiza a vida individual e coletiva. Como nos fala Laplantine e Trindade, “o homem em si mesmo é fantástico, à medida que manifesta a faculdade humana de transcender o humano”. Este devaneador mantém contato pleno com o universo psíquico, abre caminho para que se apresente o artista existente em cada um. Seguindo em direção ao rastro do poeta interior, esta forma de contato nos faz reconhecer núcleos impregnados de emoção. Este ser sonhador marca e constitui a subjetividade criando condições de compor os versos que nutrem a alma. Falamos de um sujeito que poetiza a existência e sobrevive ao tempo, alimentando a criança interna que expande a essência criadora em um corpo adulto.Assim, os projetos deixam de responder ao mundo externo e passam a alimentar seu íntimo. De forma metafórica , os sonhos trazem o autoconhecimento como propriedade do indivíduo em sua mais autêntica essência psíquica. Conforme nos apresenta o pensamento de Bachelard, “para reencontrar tais sonhos, para compreender tal linguagem, é preciso dessocializar os termos da linguagem cotidiana. Deve-se então proceder uma inversão para dar plena realidade à metáfora”.

No contato com o poeta dos sonhos nos deparamos com um sujeito capaz de construir artisticamente seu caminho. Nas metáforas de sua produção imagética encontramos a possibilidade arteterapêutica como forma de alcançar a significação de conteúdos que a razão não alcançaria sozinha. Trabalhando com a materialidade de formas e imagens, este campo terapêutico nos apresenta os contornos para a ascensão poética do sonhador. Nesta organização, o sujeito deixa emergir símbolos inconscientes importantes na conquista de seu crescimento psíquico. A arte nos mostra o caminho da simplicidade, no florescer constante da poesia de viver.Como uma busca dos mais profundos e inexplicáveis conteúdos, a consciência atingida através dos sonhos torna possível a aproximação com o que a psicologia analítica chama de verdadeiro self. Isso significa que quanto mais se permite este contato, maior será o conhecimento dos processos que regem esta complexa harmonia humana. Quando Bachelard nos propõe o encontro com o ser poético, fala não apenas da poesia escrita, mas da arte de compor a poética de uma existência: esses universos tão novos, tão fortemente imaginados não podem deixar de trabalhar o ser que os imagina naquilo que ele tem de mais íntimo. Se seguirmos com toda a sinceridade as imagens do poeta, parecer-nos-á que a imaginação aniquila em nós um ser da terra. Somos tentados a deixar em nós um ser das águas. O poeta inventou um ser, portanto é possível inventar seres. Para cada mundo inventado, o poeta faz nascer um sujeito que inventa. Delega seu poder de inventar ao ser inventado.

A vitalidade experimentada na criação sonha cada cor, cada linha sem o comprometimento intrínseco de interpretar ou comparar qualquer conteúdo. O fundamental para o indivíduo não é encontrar os significados, mas abrir-se para que possa ocorrer a emersão da cadeia de significados que acompanha cada símbolo. Neste caminho, o material psíquico do sonho como elemento criativo poderá ser vivido em sua plenitude sem perder a sua unicidade. Este reconhecimento das diversas partes constituintes do psiquismo e o seu percurso interno possibilita a re-conexão dos elementos internos que perderam o contato.Para Jung o encontro com o si-mesmo simboliza a proximidade constante com as camadas diferenciadas e complementares de nosso aparelho psíquico. Para a teoria analítica a expressão possível para este núcleo se faz através das fantasias. Este conteúdo fantasmático se coloca como o canal mais claro para a manifestação profunda da psique. Assim, através das fantasias inconscientes e suas manifestações, o caminho do si-mesmo mostra-se possível. Somos seres da fantasia, e neste material estão armazenados os nossos maiores potenciais criativos para a vida.Neste percurso ao encontro da individuação, reconhecemos o sonho, que manifesta por meio de símbolos a energia em sua força pulsional, alimentando a perspectiva do que ainda poderá ser construído na busca da felicidade. Este seria o trajeto da perseverança, da não desistência diante das dificuldades, sejam elas barreiras internas ou externas. Como um reservatório capaz de conduzir o sujeito em direção ao imaginário, o sonho se movimenta a partir desta usina que se chama inconsciente. Segundo nos afirma Jung, o inconsciente deve ser compreendido como parte da natureza humana, genuína em suas manifestações.

O sonho se propõe a ser um espelho, no qual estão refletidas no presente, imagens que regem a direção futura de representações anteriores. Isso significa que o sonho se configura a partir de conteúdos que formam a história do sujeito, incluindo suas manifestações ontogenéticas e filogenéticas. Encontramos neste funcionamento, a tentativa de integração das diferentes partes que compõem a personalidade em sua forma mais profunda. Esta junção de forças passa a ser possível através do reconhecimento de conteúdos obscuros, como uma alquimia que une e transforma polaridades. O processo de individuação cumpre a busca gradativa desta síntese entre a consciência e os aspectos do inconsciente. Quanto maior a elaboração consciente das diversas oposições que nos compõem, mais possível será este caminhar.

A POESIA NO REPOUSO DO FEMININO

Uma das grandes complementaridades do psiquismo humano se encontra nos arquétipos do anima – feminino - e do animus - masculino. Para a teoria analítica este seria o principal canal das projeções afetivas, ou seja, o homem busca na mulher a anima que nele existe e a mulher tenta encontrar no homem o animus que internamente reconhece. Seguindo este pensamento, teríamos em todas as pessoas, independente do gênero, aspectos do masculino e feminino, como forças de completude e integração. Logo, encontramos em nossa essência características ambíguas que se complementam. O sonho em seu pleno devaneio criativo nos apresenta essas duas forças juntas em busca da sintonia. Como nos fala Bachelard, “não admira, pois, que no devaneio solitário nós nos conheçamos ao mesmo tempo no masculino e no feminino. O devaneio vive numa paixão idealizada o objeto de sua paixão” . Nesta idealização que nos fala do feminino e sua possibilidade de se desprender do real também encontramos a própria concretude deste universo imagético. Como um processo alquímico, o sonho age na junção de diferentes elementos que, no contato com a consciência, produzem novas perspectivas.

Ainda a partir de Bachelard, o devaneio guarda em seu caráter andrógino a busca da harmonia interna. O caminho do sonho em estado de devaneio parte de sua condição de menor profundidade – relacionado ao masculino – à sua maior profundidade – o feminino – em seu direcionamento ao encontro do mais interno. A manutenção destas energias em equilíbrio permite o movimento interno em sintonia com a dinâmica dos diferentes gêneros que nos habitam. Nesta junção, reconstruímos paralelamente os complexos paterno e materno . O contato consciente com o complexo paterno direciona a energia psíquica, impedindo sua regressão, mantendo sua função racional, capaz de organizar de forma lógica os fatos do mundo real. Por outro lado o complexo materno impulsiona o psiquismo a inteirar-se com o universo, além de possibilitar ao sujeito o contato com toda sua subjetividade .Estamos vivendo um momento histórico que prioriza a razão em detrimento da criatividade. Com isso perdemos parcialmente a suavidade do feminino. Esta energia guarda em si o repouso do ser, que se reanima no confortável amparo da criação. Isto seria “um dos estados femininos da alma”. Na poesia do ser que usufrui de seu próprio produto, o sonhador se alimenta do que dele emerge em direção ao mundo no contato com sua anima. No reencontro com o sonhador que nos habita, o feminino se nutre, direcionando sua energia psíquica para o caminho da criação.

Por outro lado, necessitamos das qualidades intrínsecas do masculino, parte de nosso funcionamento onde encontramos a energia direcionada aos projetos, organização e execução. O feminino nos encaminha para o universo das imagens, na simplicidade do devaneio genuíno. Se separarmos estes aspectos, estaremos fragmentando o contato com o mundo. Através do animus vivemos as idéias, o sentido crítico e vigilante da vida sem ilusões. Na experiência da anima, estaremos nos aproximando do poeta, acolhendo as imagens que servem como inspiração para a produção de novas criações. O caminho da harmonia deve seguir o trânsito dessas duas instâncias psíquicas, como nos apresenta Bachelard: a vida impele; transforma o ser; a vida assume brancuras; a vida floresce; a imaginação se abre às mais longínquas metáforas; participa da vida de todas as flores. Com essa dinâmica floral a vida real ganha um novo ímpeto. A vida real caminha melhor se lhe dermos suas justas férias de irrealidade.

Seguir este fluxo das possibilidades metafóricas talvez nos forneça uma proximidade de construção interna de contato consciente com estas diferentes, embora complementares, forças internas. A sabedoria humana está exatamente na tentativa constante de equivalência entre os dois pólos. Isso se torna possível com a consciência alcançada na manifestação dos aspectos inconscientes da personalidade. Não podemos entender como um lugar de chegada, mas o caminho a ser percorrido e conquistado passo a passo durante toda a existência. O sonho, em seu aspecto criativo, nos fala de semear na poesia da vida a alegria de existir na construção do caminho. Nesta linguagem, o mundo passa ser belo. Em nome do sonho, a vida pode se ressignificar. O universo do sonhador configura uma obra grandiosa em sua essência. Esse percurso, muito próximo do que pretende a individuação, nos faz reconhecer em cada pessoa seu potencial de construção e reconstrução do mundo real e imaginário. Esta pessoa não estará mais restrita ao que seus olhos podem ver, ou suas mãos podem tocar; ela alcançará o mundo cósmico. O sonho nos coloca em estado de renascimento a cada momento da vida. Na poetização nos aproximamos do que seria a harmonia das diversas forças psíquicas existentes em cada indivíduo.

CONCLUINDO

A perspectiva arteterapêutica baseada na teoria junguiana permite ao terapeuta o lugar de receptor, disponível para aceitar os sinais emitidos em cada símbolo representado na criação do paciente. Nesta produção única na qual emergem imagens inconscientes através das diversas possibilidades expressivas, o indivíduo elabora por meio deste processo imagético suas emoções e seu funcionamento psíquico. Como nos apresenta Philippini, “este caminho único, compreende as transições e transformações em direção a tornar-se um ‘in’ divíduo, aquele que não se divide face às pressões externas e que assim procura viver plenamente, integrando possibilidades e talentos, às feridas psíquicas” . Desta forma, os sofrimentos psíquicos são reelaborados em outra configuração, com uma renovada montagem para as antigas fragmentações. Neste percurso, muitas vezes doloroso, a pessoa busca apenas aliviar seus sofrimentos. Vivencia na terapia este acolhimento, mas primordialmente estabelece um encontro com seu mais profundo self. Neste construir, desconstruir, representar, registrar, materializar e elaborar os conteúdos, a subjetividade inicia um caminho sem volta, acordando do mais profundo sono. Podemos decifrar este “acordar” como um processo de dar-a-cor ao que antes parecia um campo cinza e nublado. Este indivíduo, ainda com suas angústias, mas agora capaz de criar através desta imponderável constituição psíquica, recomeça sua trajetória a todo o momento. Agora não se verá mais como prisioneiro do medo congelante de uma vida que não se permite correr riscos, gerar movimentos e produzir coloridos.

REFERÊNCIAS

ARMSTRONG, Karn. Breve História do Mito. São Paulo: Editora Schwarcz, 2005.
BACHELARD, Gaston. A água e o Sonho. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997.
_________________. A poética do Devaneio. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006.
CAVALCANTI, Tito R. de A. Jung. São Paulo: PubliFolha, 2007.
LAPLANTINE, François e TRINDADE, Liana. O Que é Imaginário. São Paulo: Brasiliense, 2003.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.
PHILIPPINI, Ângela. Para Entender Arteterapia: Cartografias da Coragem. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2004.
SILVEIRA, Nise. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática, 1992.
______________. Jung Vida e Obra. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1994.
POLLY, Young e DAWSON, Eisendrath Terence. Manual de Cambridge Para Estudos Junguianos. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

Georgina Martins

Psicóloga clínica, Pós-Graduada em arteterapia POMAR-ISEPE, especializada em Análise Bioenergética SABERJ-IBA. Com formação em Infância e Juventude na abordagem corporal neo-reichiana, atuou em projetos ligados a adolescentes. Atende clinicamente em consultório jovens e adultos e coordena grupos terapêuticos. Integrante e uma das coordenadoras do NUNAP-Núcleo de novas abordagens terapêuticas.



Por: Georgina Martins

 

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