08/12/2014
Obesidade, Anorexia e Significado Pessoal

“A vida de um indivíduo é a vida de seu corpo. O corpo com vida inclui a mente, o espirito e a alma. Viver a vida do corpo inteiramente significa ser atento, espiritual e nobre”

Alexander Lowen

Vivemos em tempos de complexidades onde precisamos a cada dia estar no nosso lugar. No eixo para lidar com as surpresas do cotidiano, e principalmente como profissionais, trabalharmos numa perspectiva porosa, multidisciplinar, no que diz respeitos aos sinais em relação ao corpo : passar a olhar para o doente e não para a doença. Vamos refletir um pouco sobre como trazer para a linguagem comum este olhar do subjetivo do processo de emagrecer e engordar, que as vezes se situa em casos extremos como o da anorexia e obesidade mórbida.

Aprendemos na psiquiatria que existem graus variáveis entre estar perfeitamente normal e perdidamente doente, ao contrário de muitas outras doenças onde se está ou não está doente. Com a obesidade, existem graus variados que vão desde o sobre-peso discreto até a obesidade mórbida. O mesmo acontece com a anorexia.

Vivemos numa sociedade que estimula os extremos, os limites e,desta forma, experimentamos uma grande falta de limites sociais e internos. Quando diminuir? Como parar? Assim, ficamos sujeitos cada vez mais, à impossibilidade de dizer Não, e desta forma ficamos também debilitados para dizer Eu. Quando um bebê diz não, ele está demonstrando através do seu comportamento que existe um sujeito dentro daquele corpinho, agora em interação, deixando claro a dimensão singular e coletiva do ser. Antes, a nossa cultura era de repressão, impossibilidades, da angústia de desejar e não poder : Tudo era proibido. Hoje, vivemos a angústia da escolha diante de tantas possibilidades. Podemos dizer Sim e Não diante das oportunidades e principalmente, bancar internamente esta escolha. Quando adoecemos, podemos procurar um médico, alopata ou homeopata, clínico-geral ou especialista, acupunturista ou antroposofista, um pastor, amigo, padre, pai de santo, alguém para nos rezar, e assim o leque de possibilidades estará sempre aberto. Ainda posso visitar um médico, e um padre ao mesmo tempo, enfim, um leque de possibilidades que estão a nosso dispor.
De maneira geral, a saúde é encarada a um estado de “não-doenca”, e de “não-dor”. Quando o individuo leva sua vida sem grandes questionamentos, é mais fácil tomar um remédio para passar a dor, do que entender as mensagens desta dor. No caso da obesidade mórbida, a pessoa o sujeito passa para a cirurgia da redução do estômago, para reduzir o corpo e assim encontrar um limite a partir de uma intervenção externa para resolver o problema . Em alguns casos, emagrecem e depois voltam a engordar : a pessoa, podendo comer 300 gramas de comida, alimenta-se com 300 gramas de leite condensado. Em outros casos sua compulsividade passa para o sexo, bebidas, drogas etc.

Existe um lugar subjetivo em que cada sujeito se encontra, e que precisa ser compreendido. Um território onde sua expressão é através dos mapas, que são os sinais e sintomas: um corpo que se apresenta naquele momento de vida para ser seguido, olhado e cuidado. Ninguém entra neste processo de engordar ou emagrecer por acaso. Precisamos identificar e intervir nos casos extremos de maneira rápida, como na obesidade mórbida, anorexia, e bulimia. Ao mesmo tempo, compreender que tem um sujeito, que está falando pelo seu corpo, dando pistas para sair deste sintoma que pode causar até mesmo a sua morte.Este imediatismo de hoje em dia, nos faz buscarmos o entendimento das partes e não a compreensão do todo. Ficamos na superfície e não aprofundamos nada em nós mesmos. Devemos entender o sintoma como movimento do corpo para vida e não para a morte. O organismo se manifestando, pulsando ,pedindo ajuda para uma harmonia e sincronicidade. O Homem não é uma máquina, onde as engrenagens tem que funcionar muito bem e quando se estraga uma peça, ela é trocada.

A saúde não é algo estático e sim dinâmico. Caso fosse estática, os sintomas iriam se apresentar com os mesmos sinais independente do sujeito.A função básica do organismo é manter a homeostase diante de todos os estímulos do mundo exterior e interior. O equilibro se faz com a livre circulação de energia no organismo. Quando esta circulação de energia não ocorre de maneira adequada, surgem as doenças. A doença nos obriga a sermos sinceros com nos mesmos. Muitas questões fundamentais atingem o sujeito neste período como: o que fiz da minha vida? Porque sou como sou? O que me fez ou faz mal? O que me falta?O que realizei como pessoa?

As primeiras funções do bebê estão relacionadas a alimentacão. O universo da criança gira em torno da necessidade de se alimentar. O conceito de “holdding” de Winncott que leva ao, conforto, segurança, para o bebê ser alimentado, que no mundo infantil significa ser amado.

A recusa de se alimentar do adulto, como no caso da anorexia e o desejo compulsivo de comer, que vemos na bulimia e obesidade, tocam em questões primitivas, pré verbais. Assim como muitas vezes, nos relacionamos ao mesmo tempo à conflitos familiares, devido a este lugar subjetivo no qual a pessoa se encontra na sua dinamica familiar. Às vezes, ocorre a impossibilidade da consciência do conflito familiar e assim ouvimos: “simplemente está tudo muito bem somente a gordura me incomoda”. Em outros casos, é internalizada a impossibilidade da mudança, mesmo gerando diversos comprometimento à saúde e à vida social desta pessoa. Por incrível que pareça, apesar das informações a respeito da anorexia, bulimia, obesidade, este estado não é visto pelo próprio indivíduo como um problema. Muitas vezes, estes pacientes já se encontram diretamente ligados à um circuito médico que sem duvida, é necessário. Mas existe o clamor do apoio psicológico e sua intervenção e compreensão para que não se reduza o sujeito complexo em uma parte, para que este mesmo sujeito possa compreender a sua historia, dando um sentido a sua dinâmica que hoje estaria desarmônica. Não existe uma única causa para a bulimia, anorexia, obesidade, e sim uma dinâmica causal, que é ao mesmo tempo genética, biológica, psicológica, cultural, fazendo com que seja necessário priorizar todas as suas dimensões e olhares.

“Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas nem sempre”


Por: Fernando Nóbrega

 

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