08/12/2014
Psicofármacos X Psicoterapia : um falso dilema

A existência dos transtornos mentais (ou psíquicos) é um dos marcos mais significativos e intrigantes da condição humana. Entre os antigos, acreditava-se que os transtornos mentais, a epilepsia e os estados de transe e possessão fossem um sinal de comunicação divina ou mesmo o resultado de um castigo dos deuses (assim como as doenças do corpo).

A epilepsia, por exemplo, era conhecida como a ‘Doença Sagrada’ pois no estado de turvação de consciência que se seguia a uma crise epiléptica, a pessoa acometida era capaz de comportar-se de modo diverso do habitual e falar coisas sem nexo lógico aparente, o que era interpretado pelos sacerdotes e pelos leigos como uma comunicação dos deuses, que se valiam da pessoa acometida para emitir mensagens, sinais e vaticínios para os humanos.

A Psicologia surge como um ramo do conhecimento apenas em 1774 e a Psiquiatria, especialidade médica dedicada ao estudo e tratamento dos transtornos mentais tem pouco mais de duzentos anos de existência.Até o surgimento destes distintos e complementares campos da ciência, as dores existenciais, os conflitos emocionais e os transtornos mentais eram considerados como afecções espirituais, e como tal eram objeto de atenção e tratamento por parte dos sacerdotes, dos magos e dos xamãs; o que nos ajuda a compreender por que ainda hoje a concepção sobrenatural da etiologia do sofrimento e do mal-estar subjetivo é prevalente entre os diversos estratos da sociedade, mesmo entre as pessoas de melhor nível sócio-educacional.

O entendimento do sofrimento subjetivo como uma condição de desequilíbrio da homeostase (equilíbrio) entre as distintas dimensões biopsicossociais que engendram a condição humana (corporeidade, sensações, sentimentos, pensamento, capacidade simbólica, linguagem, cultura e comportamento) e não como uma comunicação ou castigo dos deuses é, portanto, um evento muito recente se considerarmos que o homo sapiens surgiu há cerca de 30 mil anos.

As primeiras psicoterapias de orientação científica surgem no início do século XX enquanto a introdução dos psicofármacos no tratamento das condições mentais ocorre em meados da década de 50 após a constatação de que a clorpromazina era eficaz no controle de pacientes em estado de grande agitação e comportamento violento. A entrada em cena dos medicamentos psicoterapêuticos provocou uma reviravolta dramática no campo do tratamento dos transtornos mentais ao permitir a ressocialização de pacientes violentos e agitados bem como a possibilidade de redução do uso de métodos de contenção física e tratamentos somáticos de caráter dramático e eficácia incerta como o choque por insulina, a lobotomia e a eletroconvulsoterapia (ECT).

Infelizmente, a psiquiatria sofre de uma vulnerabilidade de origem em razão de seu objeto de estudo e lugar de ação, o que a torna uma especialidade especialmente vulnerável à tentação de constituir-se como uma espécie de polícia moral da sociedade e um dispositivo de controle em relação aos comportamentos desviantes da norma vigente na sociedade como bem explicitaram filósofos e pensadores como Foucault, Deleuze, Guattari, Castel, Laing e Cooper e Thomas Szasz dentre outros. O poder absoluto do saber psiquiátrico como dispositivo de controle e disciplina morais encontra, portanto, a sua contrapartida e asseguram-se dispositivos ético-legais que restringem o uso de procedimentos radicais apenas como terapêuticas de último recurso em casos refratários aos tratamentos consensualmente reconhecidos como efetivos e reguladas por instrumentos legais de prevenção ao uso abusivo ou inadequado de tais procedimentos, tais como o consentimento informado, o protocolo do CFM (Conselho Federal de Medicina) para a ECT e, no plano global, a Lei 10.216 de 06/04/2001, que dispõe sobre a proteção dos direitos dos usuários dos serviços de saúde mental.

Assim, em face da perspectiva religiosa-esotérica acerca das doenças mentais e em razão do obscuro passado repressor da psiquiatria o verdadeiro impacto e os benefícios da combinação entre o uso de medicamentos psicoterapêuticos, psicoterapia e intervenções psicossociais ainda permanece como uma espécie de tabu não só entre o publico leigo, mas no próprio interior da comunidade dos trabalhadores em saúde mental.

Apenas há alguns anos é que começaram a surgir evidências científicas acerca da eficácia das psicoterapias (Baxter et al. 1992; Schwarts et al. 1996) bem como o entendimento de que o tratamento integrado (isto é, psicoterapia combinada com psicofármacos e intervenções psicossociais) é a alternativa que promove mais e melhores resultados do que quando se utilizam apenas um dos recursos isoladamente (OMS, 1993).Observa-se, portanto, que o estudo das interações, limites e alcances da terapêutica integrada no campo da saúde mental constitui uma linha de pesquisa promissora para o futuro dos tratamentos das doenças mentais e do sofrimento subjetivo em geral.

Esperamos que no futuro a atual dicotomia maniqueísta entre psicoterapia e psicofármacos seja considerada apenas um resíduo cultural do dualismo mente-corpo de uma época em que ainda se considerava o ser humano como uma entidade constituída por duas substâncias distintas.


Por: José Ignacio Xavier

 

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